O dogma da Assunção de Nossa Senhora: o que é?

segunda-feira, agosto 18, 2008

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26. Muitas vezes os teólogos e oradores sagrados, seguindo os passos dos santos Padres,(15) para explicarem a sua fé na assunção, serviram-se com certa liberdade de fatos e textos da Sagrada Escritura. E assim, para mencionar só alguns mais empregados, houve quem citasse a este propósito as palavras do Salmista: "Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca de vossa santificação" (Sl 131,8); e na Arca da Aliança, feita de madeira incorruptível e colocada no templo de Deus, viam como que uma imagem do corpo puríssimo da virgem Maria, preservado da corrupção do sepulcro, e elevado a tamanha glória no céu. Do mesmo modo, ao tratar desta matéria, descrevem a entrada triunfal da Rainha na corte celeste, e como se vai sentar a direita do divino Redentor (Sl 44,10.14-16); e recordam a propósito a esposa dos Cantares "que sobe pelo deserto, como uma coluna de mirra e de incenso" para ser coroada (Ct 3,6; cf. 4,8; 6,9). Ambas são propostas como imagens daquela Rainha e Esposa celestial, que sobe ao céu com o seu divino Esposo.

27. Os doutores escolásticos vislumbram igualmente a assunção da Mãe de Deus não só em várias figuras do Antigo Testamento, mas também naquela mulher, revestida de sol, que o apóstolo s. João contemplou na ilha de Patmos (Ap 12, ls.). Porém, entre os textos do Novo Testamento, consideraram e examinaram com particular cuidado aquelas palavras: "Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres" (Lc 1,28), pois viram no mistério da assunção o complemento daquela plenitude de graça, concedida à santíssima Virgem, e uma singular bênção contraposta à maldição de Eva. 

Na teologia escolástica

28. Por esse motivo, nos primórdios da teologia escolástica, o piedosíssimo varão Amadeu, bispo de Lausana, afirmava que a carne da virgem Maria permaneceu incorrupta – nem se pode crer que o seu corpo padecesse a corrupção -, porque se uniu de novo à alma, e juntamente com ela penetrou na corte celestial. "Pois ela era cheia de graça e bendita entre as mulheres (Lc 1,28). Só ela mereceu conceber o Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, e sendo virgem deu-o à luz, amamentou-o, trouxe-o no regaço, e prestou-lhe todos os cuidados maternos".(16)

29. Entre os escritores sagrados que naquele tempo com vários textos, comparações e analogias tiradas das divinas Letras, ilustraram e confirmaram a doutrina da assunção em que piamente acreditavam, ocupa lugar primordial o doutor evangélico s. Antônio de Pádua. Na festa da assunção, ao comentar aquelas palavras de Isaías: "glorificarei o lugar dos meus pés" (Is 60,13), afirmou com segurança que o divino Redentor glorificou de modo mais perfeito a sua Mãe amantíssima, da qual tomara carne humana. "Daqui, vê-se claramente", diz, "que o corpo da santíssima Virgem foi assunto ao céu, pois era o lugar dos pés do Senhor". Pelo que, escreve o Salmista: "Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santificação". E assim como, acrescenta ainda, Jesus Cristo ressuscitou triunfante da morte e subiu para a direita do Pai, assim também "ressuscitou a Arca da sua santificação, quando neste dia a virgem Mãe foi assunta ao tálamo celestial".(17)

No período áureo

30. Quando, na Idade Média, a teologia escolástica atingiu o maior esplendor, s. Alberto Magno, para demonstrar essa verdade, apresenta vários argumentos fundados na Sagrada Escritura, na tradição, na liturgia e em razões teológicas, e conclui: "Por estas e outras muitas razões e autoridades, é evidente que a bem-aventurada Mãe de Deus foi assunta ao céu em corpo e alma sobre os coros dos anjos. E cremos que isto é absolutamente verdadeiro".(18) E num sermão pregado em dia da Anunciação de nossa Senhora, ao explicar aquelas palavras do anjo: "Ave, cheia de graça…", o doutor universal compara a santíssima Virgem com Eva, e afirma clara e terminantemente que Maria foi livre das quatro maldições que caíram sobre Eva.(19)

31. O Doutor Angélico, seguindo as pisadas do mestre, ainda que nunca trate expressamente do assunto, no entanto sempre que se oferece a ocasião fala dele, e com a Igreja católica afirma que o corpo de Maria juntamente com a alma foi levado ao céu.(20)

32. É da mesma opinião, entre outros muitos, o Doutor Seráfico, o qual tem como certo que, assim como Deus preservou Maria santíssima da violação do pudor e da integridade virginal ao conceber e dar à luz o seu Filho, assim não permitiu que o seu corpo se desfizesse em podridão e cinzas.(21) Aplica a santíssima Virgem, em sentido acomodatício, aquelas palavras da Sagrada Escritura: "Quem é esta que sobe do deserto, cheia de gozo, e apoiada no seu amado?" (Ct 8,5), e raciocina desta forma: "Daqui pode concluir-se que ela está ali corporalmente (na glória celeste)… Porque… a sua felicidade não seria plena se ali não estivesse em pessoa; ora a pessoa não é só a alma, mas o composto; logo é claro que está ali segundo o composto, isto é, em corpo e alma; de outro modo não gozaria de felicidade plena".(22)

Na escolástica posterior

33. Na escolástica posterior, ou seja no século XV, são Bernardino de Sena, resumindo e ponderando cuidadosamente tudo quanto os teólogos medievais tinham escrito a esse propósito, não julgou suficiente referir as principais considerações que os antigos doutores tinham proposto, mas acrescentou outras novas. Por exemplo, a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo – semelhança que nem sequer nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos céus – exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Cristo".(23) Portanto, é muito conveniente e conforme à razão que tanto o corpo como a alma do homem e da mulher tenham alcançado já a glória no céu; e, finalmente, o fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível" da assunção.(24)

Nos tempos modernos

34. Em tempos mais recentes, as razões dos santos Padres e doutores, acima aduzidas, foram usadas comumente. Seguindo o comum sentir dos cristãos, recebido dos tempos antigos s. Roberto Belarmino exclamava: "Quem há, pergunto, que possa pensar que a arca da santidade, o domicílio do Verbo, o templo do Espírito Santo tenha caído em ruínas? Horroriza-se o espírito só com pensar que aquela carne que gerou, deu a luz, alimentou e transportou a Deus, se tivesse convertido em cinza ou fosse alimento dos vermes".(25)

35. De igual forma s. Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não a levava para o céu?"(26) E s. Afonso escreve por sua vez: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que ele mesmo tomara a própria carne".(27)

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comentário(s)

  1. Raquel Jubert disse:

    Buscando músicas católicas encontrei este site. Estou maravilhada com o que encontrei. Palavras de conforto,de esperança,de fé.Rogo a Deus que outras pessoas possam encontrá-lo e que fiquem maravilhadas assim como eu.

  2. Alex A. Borges disse:

    Convido os demais leitores do Canto da Paz a visitar via internet o belíssimo mosteiro cisterciense dedicado à gloriosa Assunção de Nossa Senhora, em Itatinga, no interior de São Paulo, próximo ao seu centro geográfico: http://www.mosterioitatinga.org.br

  3. Roberto disse:

    Olá!!Gostaria de saber se existe e onde algum registro sobre a morte a assunção da Virgem Maria. Obrigado.

  4. cantodapaz disse:

    **** Roberto, A Assunção é um dogma, portanto, uma verdade acreditada desde os primeiros anos no início da Igreja e perpetuada ao longo dos séculos, pela Tradição. A Igreja nem se quer se pronuncia se a Virgem Maria morreu ou se foi elevada aos céus em vida. Este detalhe não é essencial para que creiamos. Um abraço. ****

  5. Alex A. Borges disse:

    Fé e razão são complementares; não são incompatíveis. Não devemos fechar nossa razão ( inteligência) à fé, nem fechar nossa fé à razão. Não é verdade ou real só aquilo que a inteligência humana explica ou o que, no caso, a ciência histórica registra. Os primeiros cristãos que conviveram com Santíssima Virgem Mãe de Deus foram testemunhas fidedignas da sua Assunção. Esse seu testemunho foi recebido e perpetuado pelos demais cristãos e pela tradição da Igreja. Ademais o Espírito Santo dado por Deus à sua Igreja nos assegura pelo magistério pontifício, exercido no dogma, a verdade da Assunção da Mãe de Deus! Bendita seja a gloriosa Assunção da Mãe de Deus, Maria Santíssima!

  6. Antonio disse:

    Peço vênia para acrescentar o que, provavelmente, muita gente desconhece: Quando se vai promulgar um dogma católico, a Santa Sé, no seu “modus operandi” expressa a todos os Bispos do Mundo o desejo de quase todo o orbe católico em tal particularidade. E a tais Bispos se pede que reze por determinado tempo e expresse o seu “parecer”. No que tange ao dogma da Assunção, quase a totalidade dos Bispos respondeu que sim; ou seja, que devia ser promulgado o dogma como revelação de Deus. Após o quê, o Santo Padre, unido com o colegiado de Cardeais, orantes, faz o pronunciamento oficial. —- Estarei certo em assim dizê-lo? Perdão, se me informaram erroneamente.

  7. Anônimo disse:

    Not so bad 🙂

  8. beatriz disse:

    PAZ DE CRISTO.
    ENTREI NO SITIO PARA VER UM CERTO ARTIGO QUE PROCUREI NO GOOGLE E JÁ FAZ MAIS DE MEIA HORA QUE PASSEIO POR VÁRIAS PÁGINAS E ADOREI A MANEIRA COMO SÃO COLOCADOS OS ARTIGOS, DE UMA MANEIRA SIMPLES E PRÁTICA DE ENTENDER.
    DEIXAREI O SITIO NA MINHA LISTA DE FAVORITOS.
    PARABENS A TODOS PELO BELO TRABALHO.
    SHALOM.
    BIA.

  9. Hermeto Nelson Spohr disse:

    Gostei muito! Tudo que se refere a Nossa Senhora fico maravilhado. Cada vez mais,mais apaixonado.Amo muito Nossa Mãe Maria Santíssima!Continuem,por favor,a escrever sobre Maria.Por favor!…Pela graça de Nossa Senhora,Mãe de Nosso Senhor Jesus e Esposa mui-fidelíssima de Nosso Senhor Deus Pai,criador do céu e da terra e que por Ele todas as coisas foram geradas…

  10. Maria Leonor B. M. G. de Figueiredo disse:

    adorei o artigo me tirou dúvidas sobre a Assunção de Nossa Senhora,mas como é difícil para mim ainda assimilar tudo isto,é um mistério mesmo.

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