O dogma da Assunção de Nossa Senhora: o que é?

segunda-feira, agosto 18, 2008

CONTINUACAO

17. Nos livros litúrgicos em que aparece a festa da Dormição ou da Assunção de santa Maria, encontram-se expressões que de uma ou outra maneira concordam em referir que, quando a virgem Mãe de Deus passou deste exílio para o céu, por uma especial providência divina, sucedeu ao seu corpo algo de consentâneo com a dignidade de Mãe do Verbo encarnado e com os outros privilégios que lhe foram concedidos. É o que se afirma, para apresentarmos um exemplo elucidativo, no Sacramentário enviado pelo nosso predecessor de imortal memória Adriano I, ao imperador Carlos Magno. Nele se diz: "É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pode ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor".(7)

18. Aquilo que aqui se refere com a sobriedade de palavras costumeiras na Liturgia romana, exprime-se mais difusamente nos outros livros das antigas liturgias orientais e ocidentais. O Sacramentário Galicano, por exemplo, chama a esse privilégio de Maria, "inexplicável mistério, tanto mais digno de ser proclamado, quanto é único entre os homens, pela assunção da virgem". E na liturgia bizantina a assunção corporal da virgem Maria é relacionada diversas vezes não só com a dignidade de Mãe de Deus, mas também com os outros privilégios, especialmente com a sua maternidade virginal, decretada por um singular desígnio da Providência divina: "Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação".(8)

A festa da Assunção

19. A Sé Apostólica, herdeira do múnus confiado ao Príncipe dos apóstolos de confirmar na fé os irmãos (cf. Lc 22,32), com sua autoridade foi tornando cada vez mais solene esta celebração. Esse fato estimulou eficazmente os fiéis a irem-se apercebendo mais e mais da importância deste mistério. E assim, a festa da assunção, que ao princípio tinha o mesmo grau de solenidade que as restantes festas marianas, foi elevada ao rito das festas mais solenes do ciclo litúrgico. O nosso predecessor S. Sérgio I, ao prescrever as ladainhas, ou a chamada procissão estacional, nas festas de nossa Senhora, enumera simultaneamente a Natividade, a Anunciação, a Purificação e a Dormição.(9) A festa já se celebrava com o nome de assunção da bem-aventurada Mãe de Deus, no tempo de S. Leão IV Esse papa procurou que se revestisse de maior esplendor, mandando ajuntar-lhe a vigília e a oitava. E o próprio pontífice quis participar nessas solenidades, acompanhado de imensa multidão. (10) Na vigília já de há muito se guardava o jejum, como se prova com evidência do que afirma o nosso predecessor S. Nicolau I, ao tratar dos principais jejuns "que… desde os tempos antigos observava e ainda observa a santa Igreja romana".(11)

20. A Liturgia da Igreja não cria a fé católica, mas supõe-na; e é dessa fé que brotam os ritos sagrados, como da árvore os frutos. Por isso os santos Padres e doutores nas homilias e sermões que nesse dia fizeram ao povo, não foram buscar essa doutrina à liturgia, como a fonte primária; mas falaram dela aos fiéis como de coisa sabida e admitida por todos. Declararam-na melhor, explicaram o seu significado e o fato com razões mais profundas, destacando e amplificando aquilo a que muitas vezes os livros litúrgicos apenas aludiam em poucas palavras, a saber, que com esta festa não se comemora somente a incorrupção do corpo morto da santíssima Virgem, mas principalmente o triunfo por ela alcançado sobre a morte e a sua celeste glorificação à semelhança do seu Filho unigênito, Jesus Cristo.

Testemunho dos santos Padres

21. S. João Damasceno, que entre todos se distingue como pregoeiro dessa tradição, ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama com veemente eloqüência: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara. Convinha que aquela que viu o seu Filho na cruz, com o coração traspassado por uma espada de dor de que tinha sido imune no parto, contemplasse assentada à direita do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse o que era do Filho, e que fosse venerada por todas as criaturas como Mãe e Serva do mesmo Deus".(12)

22. Condizem com essas palavras de s. João Damasceno as de muitos outros que afirmam a mesma doutrina. E não são menos expressivas, nem menos exatas, as palavras que se encontram nos sermões proferidos pelos santos Padres mais antigos ou da mesma época, ordinariamente por ocasião dessa festividade. Assim, para citar outro exemplo, s. Germano de Constantinopla julgava que a incorrupção do corpo da virgem Maria Mãe de Deus, e a sua assunção ao céu são corolários não só da sua maternidade divina, mas até da santidade singular daquele corpo virginal: "Vós, como está escrito, aparecestes ‘em beleza’; o vosso corpo virginal é totalmente santo, totalmente casto, totalmente domicílio de Deus de forma que até por este motivo foi isento de desfazer-se em pó; foi, sim, transformado, enquanto era humano, para viver a vida altíssima da incorruptibilidade; mas agora está vivo, gloriosíssimo, incólume e participante da vida perfeita".(13) Outro escritor antiquíssimo assevera por sua vez: "A gloriosíssima Mãe de Cristo, Deus e Salvador nosso, dador da vida e da imortalidade, foi glorificada e revestida do corpo na eterna incorruptibilidade, por aquele mesmo que a ressuscitou do sepulcro e a chamou a si duma forma que só ele sabe".(14)

23. À medida que a festa litúrgica se foi espalhando, e celebrando mais devotamente, maior foi o número de bispos e oradores sagrados que julgaram de seu dever explicar com toda a clareza o mistério que se venerava nesta solenidade e mostrar como ela estava intimamente relacionada com as outras verdades reveladas.

Testemunho dos teólogos

24. Entre os teólogos escolásticos, não faltaram alguns, que, pretendendo penetrar mais profundamente nas verdades reveladas, e mostrar o acordo entre a chamada razão teológica e a fé católica, notaram a estreita conexão existente entre este privilégio da assunção da santíssima Virgem e as demais verdades contidas na Sagrada Escritura.

25. Partindo desse pressuposto, apresentam diversas razões para corroborar esse privilégio mariano. A razão primária e fundamental diziam ser o amor filial de Cristo para o levar a querer a assunção de sua Mãe ao céu. E advertiam mais, que a força dos argumentos se baseava na incomparável dignidade da sua maternidade divina e em todas as graças que dela derivam: a santidade altíssima que excede a santidade de todos os homens e anjos, a íntima união de Maria com o seu Filho, e sobretudo o amor que o Filho consagrava a sua Mãe digníssima.

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comentário(s)

  1. Raquel Jubert disse:

    Buscando músicas católicas encontrei este site. Estou maravilhada com o que encontrei. Palavras de conforto,de esperança,de fé.Rogo a Deus que outras pessoas possam encontrá-lo e que fiquem maravilhadas assim como eu.

  2. Alex A. Borges disse:

    Convido os demais leitores do Canto da Paz a visitar via internet o belíssimo mosteiro cisterciense dedicado à gloriosa Assunção de Nossa Senhora, em Itatinga, no interior de São Paulo, próximo ao seu centro geográfico: http://www.mosterioitatinga.org.br

  3. Roberto disse:

    Olá!!Gostaria de saber se existe e onde algum registro sobre a morte a assunção da Virgem Maria. Obrigado.

  4. cantodapaz disse:

    **** Roberto, A Assunção é um dogma, portanto, uma verdade acreditada desde os primeiros anos no início da Igreja e perpetuada ao longo dos séculos, pela Tradição. A Igreja nem se quer se pronuncia se a Virgem Maria morreu ou se foi elevada aos céus em vida. Este detalhe não é essencial para que creiamos. Um abraço. ****

  5. Alex A. Borges disse:

    Fé e razão são complementares; não são incompatíveis. Não devemos fechar nossa razão ( inteligência) à fé, nem fechar nossa fé à razão. Não é verdade ou real só aquilo que a inteligência humana explica ou o que, no caso, a ciência histórica registra. Os primeiros cristãos que conviveram com Santíssima Virgem Mãe de Deus foram testemunhas fidedignas da sua Assunção. Esse seu testemunho foi recebido e perpetuado pelos demais cristãos e pela tradição da Igreja. Ademais o Espírito Santo dado por Deus à sua Igreja nos assegura pelo magistério pontifício, exercido no dogma, a verdade da Assunção da Mãe de Deus! Bendita seja a gloriosa Assunção da Mãe de Deus, Maria Santíssima!

  6. Antonio disse:

    Peço vênia para acrescentar o que, provavelmente, muita gente desconhece: Quando se vai promulgar um dogma católico, a Santa Sé, no seu “modus operandi” expressa a todos os Bispos do Mundo o desejo de quase todo o orbe católico em tal particularidade. E a tais Bispos se pede que reze por determinado tempo e expresse o seu “parecer”. No que tange ao dogma da Assunção, quase a totalidade dos Bispos respondeu que sim; ou seja, que devia ser promulgado o dogma como revelação de Deus. Após o quê, o Santo Padre, unido com o colegiado de Cardeais, orantes, faz o pronunciamento oficial. —- Estarei certo em assim dizê-lo? Perdão, se me informaram erroneamente.

  7. Anônimo disse:

    Not so bad 🙂

  8. beatriz disse:

    PAZ DE CRISTO.
    ENTREI NO SITIO PARA VER UM CERTO ARTIGO QUE PROCUREI NO GOOGLE E JÁ FAZ MAIS DE MEIA HORA QUE PASSEIO POR VÁRIAS PÁGINAS E ADOREI A MANEIRA COMO SÃO COLOCADOS OS ARTIGOS, DE UMA MANEIRA SIMPLES E PRÁTICA DE ENTENDER.
    DEIXAREI O SITIO NA MINHA LISTA DE FAVORITOS.
    PARABENS A TODOS PELO BELO TRABALHO.
    SHALOM.
    BIA.

  9. Hermeto Nelson Spohr disse:

    Gostei muito! Tudo que se refere a Nossa Senhora fico maravilhado. Cada vez mais,mais apaixonado.Amo muito Nossa Mãe Maria Santíssima!Continuem,por favor,a escrever sobre Maria.Por favor!…Pela graça de Nossa Senhora,Mãe de Nosso Senhor Jesus e Esposa mui-fidelíssima de Nosso Senhor Deus Pai,criador do céu e da terra e que por Ele todas as coisas foram geradas…

  10. Maria Leonor B. M. G. de Figueiredo disse:

    adorei o artigo me tirou dúvidas sobre a Assunção de Nossa Senhora,mas como é difícil para mim ainda assimilar tudo isto,é um mistério mesmo.

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