A mística da Paz em Francisco e Clara

sexta-feira, julho 13, 2007

A Concepção de Paz na Idade Média

Na visão cristã, evitam-se guerras entre cristão, mas ao mesmo tempo faz-se guerra contra os inimigos do cristianismo, os não-crentes e os hereges, que a ameaçam a existência do cristianismo. A paz interior da pessoa adquire-se pela conversão do pecado, penitência e paz com Deus. A meta dos cristãos crentes, através do afastamento do pecado, do
mundo, e através das obras de misericórdia, é a paz do paraíso.

A paz nas cidades era entendida como garantia aos cidadãos da inviolabilidade do corpo, da vida e do matrimônio. A cidade garante a segurança dos bens dentro dos muros. A cidade assume o dever de construir e manter relações pacíficas entre seus cidadãos.

A Mística da Paz em Francisco e Clara

Francisco faz referência a uma revelação em relação à saudação da paz. “O Senhor me revelou que nós devíamos saudar da seguinte forma: ‘O Senhor te dê a paz’ ” (Test. 23). Várias fontes biográficas confirmam essa expressão e contam como os irmãos desde o início usaram em diferentes modos essa saudação (cf. LTC, 26; LP, 67; LM 3,2; EP,26). A Legenda Perusina e o Espelho da Perfeição relacionam a revelação da saudação da paz com revelação do nome de “menores”. Dizer que algo é revelado por Deus é dizer que vem carregado de força de vida, de verdade, de amor e bondade, de graça e salvação. Torna-se normativo, tem peso de responsabilidade. Tem o caráter de dom, de iniciativa divina e do que não pode ser guardado, mas deve ser comunicado, anunciado, testemunhado. A expressão “saudação” indica busca, abertura, desejo de relação. Saudar alguém é estabelecer relação com alguém. Saudar, desejando a paz do Senhor, é construir relação de paz. Este desejo terá tanto mais credibilidade quanto mais vier do coração, do testemunho de quem vem carregado da vontade divina.

Dois são, portanto, os traços que caracterizam o movimento dos irmãos que se reuniram ao redor de Francisco. Juntando esses dons com a experiência do Evangelho (envio missionário), temos um núcleo certamente bem central no carisma francisclariano. É uma fraternidade enviada em missão para dar testemunho e anunciar o Evangelho, como Irmãos Menores e arautos da paz.

Esta saudação da paz soava estranha para muitos que nunca tinham ouvido algo semelhante de outros religiosos. Alguns ficavam até mal humorados e questionavam os frades, de modo que houve quem sentisse vergonha e pedisse a Francisco a dispensa de tal saudação. Francisco, porém, animou o frade envergonhado e admoestou-o para que não se encolhesse (cf. EP,26). No tempo de Francisco haviam muitos grupos e movimentos que buscavam a pobreza e a pregação. No entanto, a novidade estava nessa saudação da paz. Diante do irmão envergonhado, Francisco esclarece que essa saudação pertence essencialmente à compreensão da nova Fraternidade. Segundo o franciscanólogo João Batista Frayer, são quatro os elementos que impregnaram a compreensão inicial dos irmãos que se juntaram a Francisco: a minoridade, a vida de penitência, a fraternidade enquanto tal e a saudação de paz. O novo estaria na saudação de paz, ao passo que os demais elementos são comuns a outros grupos da época. As fontes testemunham com clareza que se pode falar com a mesma ênfase de um movimento de paz como se costuma falar de um movimento de pobreza e penitência.

Podem-se identificar alguns traços característicos do significado da paz em Francisco: a paz interior como fundamento da paz exterior, atitude de paz como estilo de vida, contemplação, paz a ser construída, teologia e espiritualidade como base para a paz.

Frei Nestor Inácio Schwerz, Ofm

(fonte: www.franciscanos.org.br)

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