49. Carta dos Ministros Gerais para os 750 anos da morte de Santa Clara

sábado, novembro 18, 2006

A todas as Pobres Damas, filhas e irmãs de nossa Mãe Santa Clara, primeira e principal abadessa da vossa Ordem; a todos os Frades menores de todos os ramos e observâncias do mundo inteiro; a todos os nossos irmãos e irmãs da Terceira Ordem Regular e da Ordem Franciscana Secular, da parte de seus irmãos, os Ministros gerais da Ordem Franciscana: o Pai das misericórdias vos conceda todo o bem e todo o dom perfeito juntamente com a alegria do Espírito Santo e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pobre, crucificado e gloriosamente ressuscitado!

Ouvi, pobrezinhas, eleitas do Senhor, que de muitas partes e regiões fostes congregadas, O próximo ano da salvação, 2003, é de grande significado e graça para todos nós, quando seremos levados a participar da dança de alegria, com que, há 750 anos, os cidadãos do céus vieram ao encontro de Irmã Clara, no momento de sua morte.

Recordamos ao mesmo tempo o dia em que o o Sr. Papa Inocêncio IV aprovou a Forma de Vida de Irmã Clara para a Ordem das Pobres Damas, instituída pelo Bem-aventurado Francisco. Por essa Forma de Vida, Clara assumiu decididamente e todas vós, caras Irmãs, assumistes com ela a observância do santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade.

Sabemos com quanto empenho ela cumpriu durante a vida essa promessa e sabemos o quanto se comoveu ao receber, depois de longos anos de luta, a aprovação do próprio representante de Jesus Cristo. Dois dias depois da aprovação, Clara, espelho da estrela matutina, desapareceu de nossos olhos. Maravilhosamente preparada pela Virgem das virgens, foi introduzida na adega inebriante do Rei da glória.

Apesar de se terem passado 750 anos, esses dois fatos ainda ecoam a nossos ouvidos. Cheios de gratidão a Deus, proclamemo-los com alegria à Igreja. Encontremos novos modos de falar da terna bondade de nossa Irmã Clara ao povo inquieto de nosso tempo. Esforcemo-nos juntos, irmãos e irmãs, para honrar e praticar seu carisma na Igreja, como um dom a todo o Povo de Deus. Animemo-nos mutuamente nesta peregrinação de Pobreza, para que também nós nos tornemos espelhos do Emanuel, Deus-conosco, como ela o foi para o povo de seu tempo.

Algumas reflexões

A morte de um santo revela, muitas vezes, as principais características de sua espiritualidade e de sua vida. Assim aconteceu com Irmã Clara. Através das narrações que temos de sua morte, podemos captar, como filigrana, os grandes temas de sua vida e de seu ideal: dedicação às irmãs e aos irmãos e total empenho em seguir as pegadas do Cristo pobre.

Em torno dela agonizante estavam suas irmãs e irmãos no Senhor, amizades que datavam dos dias primaveris em que ela e Francisco, jovens e vigorosos, deram início ao novo projeto. Estava presente o bondoso Reinaldo. Presente Junípero, “o excelente menestrel de Deus”, que a enchia de alegria com as centelhas ardentes da fornalha de seu fervoroso coração. Presente Ângelo que, como costumava fazer, consolava os demais. Presente Leão, dolorido, porque estavam, ele e todos os companheiros, prestes a perdê-la. Grande prova para as velhas e fiéis amizades de mais 40 anos! Quanto não se devem ter ajudado mutuamente nesse longo e difícil período. A presença dos Frades em torno de seu leito de morte lembra-nos tudo aquilo que Clara partilhou com Francisco. Lembra-nos também que nós somos herdeiros dessa partilha, do carisma de ambos e de sua vocação complementar. Aqui, no fim de sua vida, vemos que Irmã Clara é ainda fiel aos laços que unem as Pobres Damas e os Frades Menores. Que alegria terá sido para ela ver-se acompanhada por eles até a porta do paraíso.

Clara agonizante tomou em suas mãos dois preciosos documentos: um era o Privilégio da Pobreza, concedido por Gregório IX. Irmã Filipa afirma que no fim da vida, depois de haver reunido em torno de si as Irmãs, entregou-lhes o Privilégio da Pobreza, confiando-lhes, diz a Legenda, a pobreza do Senhor. O segundo documento era a realização de seu grande desejo, isto é, que a Forma de Vida da Ordem fosse confirmada por uma bula papal. Em seu leito de morte pôde ter nas mãos a bula papal e beijá-la.

Estes fatos oferecem-nos abundante assunto para refletir sobre a interação de carisma e instituição em nossa vida, porque os dois documentos exprimem, na linguagem jurídica da Igreja, a intensa devoção de Francisco e de Clara por aquele Deus que pobre foi posto numa manjedoura, pobre viveu na terra e nu permaneceu na cruz.

Podemos aqui entrever a mística do despojamento que Santa Clara aprendeu do próprio Filho de Deus que se espoliou e assumiu a condição de servo… Humilhou-se e fêz-se obediente até a morte (e morte na cruz).

No mundo materialista em que vivemos, esta pobreza do coração brilha como um sinal de contradição. Num tempo de competição e de auto-promoção, esta pobreza constitue, de fato, a loucura da cruz. Esta eram a pobreza e a fraqueza do próprio Jesus que Clara, por amor, as fez suas. Revestida desta pobreza, Clara resplende diante de nós com rara e radiante beleza.

No quadro, pintado em 1283, a pedido de suas co-Irmãs, vemos Clara representada como a grande amante de Deus. É figurada vestindo um hábito pobre, por amor ao santo e amado Menino e à sua santíssima Mãe. Seu rosto é o de quem contemplou o Rei da glória. Como Francisco foi um alter Christus, um outro Cristo, assim Clara foi o cumprimento da promessa de Francisco: “Benditos e felizes os que assim fazem e assim perseveram, porque sobre eles repousará o Espírito do Senhor, que neles fará morada. Estes são os filhos do Pai celeste, que realizam as obras do Pai, e são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

No quadro, rodeia a imagem da Santa oito cenas de sua vida. Quatro contam sua vocação religiosa e quatro sua forma de vida franciscana. Uma representa sua querida irmã Inês. Outra representa o milagre do meio pão (a outra metade já havia sido dada aos Frades), que Irmã Cecília corta e recorta até que todas as Irmãs tenham comido o bastante. Aquela foi uma refeição verdadeiramente eucarística, em que os pobres de Javé foram nutridos e saciados à mesa do Senhor. Nas duas últimas cenas vêm contados a morte e o funeral de nossa Mãe. Vemos chegar Nossa Senhora com o séqüito para revestir sua filha com uma esplendorosa veste, como convém à Esposa do Cordeiro que se apronta para as núpcias. Enfim, vemos a Missa funeral, celebrada pelo Papa Inocêncio IV que quis, como todos sabem, honrá-la já com a missa das santas virgens. Felizmente para nós, o Cardeal Reinaldo impediu-o e assim temos o precioso texto do processo de canonização, com sua riqueza de fatos e de reflexões feitas por aqueles e aquelas que com ela viveram. Nesse quadro podemos admirar a pobrezinha, o vulto feminino do franciscanismo, cheio de respeito, inteligência e ternura. Nele podemos ver a descrição medieval dos dons de Deus, que agora estão em nossas mãos e que, embora conscientes de nossa fragilidade, devemos administrar, desenvolver e entregar à próxima geração das Pobres Damas.

Um apelo às Pobres Damas, nossas irmãs

Como poderemos celebrar dignamente esses eventos, insignificantes para o mundo, quase ignorados pela mídia, mas de grande relevo e importância para o Reino de Deus? Desejamos oferecer algumas pistas para os próximos meses.

Sugerimos que este 750º aniversário comece com o Domingo de Ramos de 2003, quando Irmã Clara fugiu da casa paterna e prometeu obediência a Francisco em Santa Maria dos Anjos, e se encerre com uma grande celebração, na festa de nossa gloriosa Mãe Santa Clara, dia 11 de agosto de 2004. Como vossos irmãos, estamos dispostos a assistir-vos de todos os modos possíveis. Um dos maiores presentes que nós Frades recebemos nos anos recentes foi o de um crescente conhecimento e estima por nossa Irmã Clara. Desejamos ardentemente que esse presente seja sempre mais enriquecido.

Duas sugestões

Podemos fazer duas propostas? Contam-nos os Fioretti que Irmã Clara queria muito fazer uma refeição com o bem-aventurado Francisco e que ele, arredio no começo, consentiu diante da forte pressão dos Frades. Podemos nós, irmãs e irmãos de hoje, cada um em sua própria região, ver se é possível repetir aquela maravilhosa refeição? Exatamente como os Frades insistiram com Francisco, também nós gostaríamos de insistir nessa proposta. Pensamos numa refeição celebrativa, que seja um banquete para o corpo e para o espírito, uma verdadeira festa de Deus. Reunamo-nos impelidos pelo Espírito de Deus e que o próprio Espírito possa fazer resplandecer sua glória também em torno de nossas casas, de tal forma que o povo se maravilhe, vendo o fogo de Deus brilhando em seu meio.

Nossa segunda sugestão: cada um, cada uma de nós, na região em que atuamos, procure modos de levar a inteira Família franciscana a honrar Santa Clara. As odoríferas palavras de sua regra e de suas cartas são fonte de sabedoria para todos nós. Embora tenhamos todos necessidade da dimensão clariana do nosso carisma, esta dimensão não é valorizada como deveria ser. Aproveitemos a ocasião deste ano centenário de tal forma que nenhum franciscano possa ainda dizer: Eu não conheço muito de Santa Clara.

Conclusão e bênção

Que mais poderíamos acrescentar? Estamos profundamente conscientes da promessa de nosso Pai Francisco, isto é, que teria para convosco o mesmo carinhoso cuidado e especial solicitude que tinha por seus Frades. Sentimos isso como um dever sagrado que ele nos passou. Com esta convicção e confiando na imensa bondade de Deus, damo-vos a nossa bênção com as próprias palavras de Santa Clara:

Abençoamo-vos como podemos e mais do que podemos.
Amai sempre vossas almas e as almas de vossas irmãs e irmãos.
Sede sempre solícitas na observância do que prometestes ao Senhor
O Senhor esteja sempre convosco e vós estejais com ele sempre e em todo o lugar.
Amém.

Fr. Giacomo Bini
Ministro geral OFM

Fr. Joachim Giermek
Ministro geral OFMConv

Fr. John Corriveau
Ministro geral OFMCap

Fr. Ilija Zivkovic
Ministro geral TOR

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